segunda-feira, 22 de outubro de 2018

“Terra-média: Sombras de Mordor”: Personagens femininas e a coerência com Tolkien


Descrição da Imagem: Talion carregando Lithariel ferida em meio a um acampamento orc enquanto chove fortemente.

Escrito por Caio H. Amaro

Spoilers Abaixo

Após algum tempo joguei Sombras de Mordor e descobri que não concordava com as críticas que já havia lido referente ao combate repetitivo e à história incoerente no mundo de Senhor dos Anéis, porém encontrei outras coisas que incomodaram.

A primeira é nítida, e de certa forma condiz com a obra de Tolkien em si, onde papel feminino se reduz aos clichês já conhecidos, há uma ou outra mulher que protagoniza algo e somando Sillmarillion, O Hobbit e O Senhor dos Anéis não chegam a uma dezena. Inclusive a figura de Eowyn e seu “I am no man” parece mais uma brincadeira linguística do próprio Tolkien do que uma inclinação a desenvolvê-la na história.

Neste quesito, Sombras de Mordor resta fiel ao estabelecido nos livros: logo no início descobrimos que a motivação do protagonista Talion e do espectro que lhe confere poderes, Celebrimbor, são ambas a morte de suas esposas e filhos. A clássica vingança.

Porém há mais mulheres no jogo, algo que trouxe a chance de usar mais um estereótipo: a donzela em perigo. Sendo acrescentado um toque a mais: A donzela em perigo que além de tudo está errada. Exato. Primeiro temos a esposa de um dos que organiza a rebelião dos proscritos (escravos humanos dos orcs) que contraria nosso protagonista que depois (obviamente) a salva e ajuda no êxodo daqueles escravos. Enquanto na segunda metade do jogo somos apresentados à Lithariel, uma princesa que, junto à rainha sua mãe, quer remover o domínio dos orcs sobre a terra de Nurn.

A rainha, quase não é desenvolvida, pois a todo momento está sofrendo influência de Saruman, tal qual Théoden em As Duas Torres, porém sem a parte que mostra sua majestade após o exorcismo do mago branco, ela simplesmente perde sua importância para a narrativa. A cena passa então a Talion querendo convencer Lithariel que é inútil lutar contra os exércitos de Sauron, o que culmina nele tendo que salvá-la dos malígnos orcs (ué, de novo isso?) que queriam matá-la “bem devagarzinho”. Tudo isso para o quê? Para que logo depois Talion e Celebrimbor partam em uma missão para salvar Mordor, mas claro, sem dar o braço a torcer à princesa que lutava justamente por isto.

Também Lithariel não poderia deixar de ser um interesse romântico de Talion, mesmo que o jogo pareça se passar dias ou semanas após a morte de sua esposa. Algo incoerente que só reitera o padrão tão recorrente em histórias de fantasia.


Descrição da Imagem: Thalion e o anão Torvin caçando em conjunto, montados em caragors.

Nesse sentido, justiça seja feita: Talion não sofre desenvolvimento algum ao longo da narrativa, termina da mesma forma com que começou sua saga: submisso à Celebrimbor, responsável por trazer todos os aspectos interessantes à história e protagonista da DLC Senhor Brilhante que confere ao jogo um desafio final mais digno que a própria campanha principal com Talion.

Enquanto isso, o contexto histórico, alvo de críticas em seu lançamento, é o que mais torna a narrativa interessantes, as dramatizações em áudio liberadas quando você acha um artefato no cenário remetendo tanto à situações recentes quanto à acontecimentos épicos de um passado longínquo estabelecem pontos intrigantes para quem se interessa pelos apêndices das obras tolkienianas. Também há o deslumbre em se aventurar por cenários vistos nos filmes (mesmo que apenas Mordor) e respeitar ainda mais o universo detalhado de Arda, a maior proeza de Tolkien.

A Warner conhece a força de seus personagens de O Senhor dos Anéis e é incrível como o a história cresce quando Sméagol surge, restando à ele os melhores momentos do jogo. Em suas interações com o espectro também vale ressaltar a ótima tradução e dublagem para o português brasileiro.

Descrição da Imagem: Talion lutando com um grupo de orcs e atingindo um com sua espada no centro da imagem.

Dito isto, o jogo é sim interessantíssimo, por diversos aspectos que tantas resenhas já trataram e pelo novo (já velho) sistema Nemesis que implementou. A jogabilidade em si já seria o suficiente para chamar atenção, tanto no sentido de exploração quanto no combate responsivo. Essa experiência, acrescentada ao cuidado na retratação da Terra-média, traz horas e horas matando orcs, mas infelizmente vários desses momentos são pontuados com machismos de uma narrativa já batida.

Finalizo com o exemplo claro que ocorre quando Talion está em uma missão junto ao carismático anão caçador Torvin que tanto conta sobre seu falecido e grande companheiro de caçada, e começa, do nada, a resmungar sobre “sua mulher”, tornando-o só mais um personagem masculino senso comum que fala mal da esposa que não o deixa sair com os amigos.

Descrição da Imagem: Talion e Torvin em uma colina observando o ambiente.

Assim, “Terra-média: Sombras de Mordor” passa a ser, em termos de narrativa, só mais um jogo que não consegue se afastar do padrão mocinho branco que mata todo mundo, salva donzelas e está sempre certo no final. Uma pena, uma vez que no quesito ambientação e jogabilidade ele acerte consideravelmente. No fim das contas, o jogo só se reafirma como uma produção voltada pros meninos em pleno século XXI, Tolkien ao menos tem o “desconto” de ter feito algo deste modo seis décadas atrás.

Caio H. Amaro. Escritor, roteirista e jurista. Participa do Marca Página Podcast e publica seus trabalhos no Medium e Twitter.

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