quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Review - The Order 1886




“(X)” (entendedores entenderão)

Ah! Mais um jogo ambientado na era vitoriana.

The Order 1886 retrata uma Londres paralela, governada de forma oculta por inimigos retirados dos contos fantásticos de terror. Porém, na Londres alternativa que o jogo exibe, existem vários utensílios modernos, como radiotransmissores, armas elétricas e até arrombadores de porta, em uma grande sacada steampunk.



O cenário é maravilhoso, a ambientação do jogo é primorosa e possui em seu contexto pessoas e entidades de relevância histórica (como o Marquês de Lafayette, Nikola Tesla, a Companhia das Índias Orientais, dentre outros). O enredo do jogo e sua inserção em um contexto histórico existente é muito empolgante, lembrou-me escritos de Bernard Cornwell, autor que pesquisa a realidade histórica para escrever (e até encaixar) suas obras de ficção.
A Ordem, que dá nome ao jogo, é a Távola Redonda que persistiu no tempo até o ano em que o jogo se passa (1886), guerreando contra revolucionários e até mesmo contra "mestiços" (lobisomens), infiltrados em todas as camadas sociais e de poder. É aí que você entra, assumindo o controle de sir Galahad, um bigodudo cavaleiro do mais alto escalão da Ordem e muito respeitado por seus pares.

A ideia do jogo é fantástica, com uma utilização única da mitologia imaginada. Pena que o jogo não possui mais do que 7 horas, sendo que você joga mesmo cerca de 3 ou 4.
Cenários externos cinematográficos.

O jogo foi lançado com um certo atraso pelo Estúdio Ready at Dawn no início de 2015, com a finalidade de evidenciar o poderio do Playstation 4. E realmente, os gráficos do jogo são primorosos e mesmo agora, dois anos após o lançamento do jogo, são poucos os títulos da plataforma que chegam perto da qualidade exibida em The Order.

O problema é que o não passa disso em muitos aspectos, o que acarretou diversas notas baixas pela mídia especializada, que viu em The Order 1886 um jogo mediano.

ENREDO: A história que The Order conta foi muito bem construída. O jogo possui uma ambientação histórica excelente, com diversas personalidades que de fato existiram. O universo é muito bem construído, os personagens são carismáticos e a reviravolta existente no jogo é muito bem trabalhada.

Sir Big Mustache Galahad, o protagonista.
A primeira tela do jogo é uma sacada genial, já iniciando em um momento de muita tensão, próximo do final da história, para depois voltar um pouco no tempo e relatar os fatos que culminaram naquele ponto inicial. E a história é muito bem amarrada, sem pontas soltas ou partes mal trabalhadas.

Porém, a história aparentemente inicia com o término do jogo, deixando o The Order com uma cara de prólogo. A impressão que dá é justamente essa, The Order 1886 tenta ser o início de uma franquia com diversos jogos futuros (o que, aparentemente, não irá acontecer).

É uma pena ver um enredo tão primoroso ter sido desperdiçado em um jogo com diversas falhas, que serão descritas em breve.

MÚSICA: Outro ponto chave em The Order é a trilha sonora. O jogo possui seus momentos de tensão, tensão essa em muito agravada pelo primor da trilha sonora, que é de excelente qualidade.

Outra coisa que merece ser destacada no jogo é a qualidade dos atores de voz (voice-acting). Tanto a versão em português-Brasil quanto a versão original são muito competentes. No original os personagens falam com um inglês britânico, que possui seu marcante sotaque. Já na versão nacional os dubladores dedicaram-se ao máximo, podendo a dublagem desse título ser comparada à de “The Last of Us” com tranquilidade.

Porém a dublagem nacional possui algumas partes em que a sincronização se perde, além de duas ou três frases que foram esquecidas e ficaram no inglês original.

E para casar com uma trilha sonora excelente, o jogo possui efeitos sonoros de primeiríssima qualidade. Os disparos, barulhos, gritos, vozes... Todos os efeitos sonoros do ambiente em que o jogo se passa são de uma realidade que impressiona.

GRÁFICO: Faltariam palavras aqui para elogiar a qualidade gráfica do jogo e sim, isso não é nada forçoso. The Order possui gráficos tão bonitos que chega a ser difícil acreditar que o Playstation 4 esteja processando aquilo tudo. Foi o jogo que evidenciou o avanço de geração no quesito gráfico (junto com o Ryse, do Xbox One).
Cenários internos impressionam pela riqueza de detalhes.
Todos os ambientes são muito bem trabalhados. Quando você passa por uma área residencial, um palacete, ou até mesmo pelas ruas e vielas daquela Londres, tudo possui de fato o tamanho natural das coisas. As áreas internas são ricamente detalhadas, com todos os utensílios. O mesmo vale para as áreas externas, todas elas parecem retiradas de fotografias, tamanho o cuidado aos mínimos detalhes.
Apenas para exemplificar, o Angry Joe perdeu quase um minuto falando da lâmpada de um jardim no review que fez de The Order. O jogo é, de fato, a grande showcase do poderio gráfico do Playstation 4.

GAMEPLAY: É aqui que você encontrará sua maior decepção com o jogo. Todo o trabalho no enredo, toda a qualidade sonora, todo o poderio gráfico, enfim, todas as qualidades que o jogo apresenta são jogadas no lixo em uma experiência de jogo truncada e enfadonha.

The Order, possui quase metade de seu tempo investido em cutscenes. E várias delas são meros diálogos, sem nenhuma ação cinematográfica, sem nenhum acontecimento empolgante, nada. Simples diálogo.

O resto do tempo que o jogo te proporciona é tomado novamente pela metade em eventos de interação rápida (quick time events - QTE). Chega a ser massacrante o volume de QTE no jogo. E o pior, são eventos de chance única. Errou, morreu. Simples assim.

Por fim, as outras duas ou três horas que te restam são divididas entre uma gameplay justa de cover-based third person shooter e andanças completamentes desnecessárias.

Sério, você passa vários trechos de jogo apenas andando num cenário muito bonito e bem decorado, mas sem finalidade alguma, a não ser chegar do ponto A ao B em um trajeto completamente linear. O jogo não te dá quase nenhuma interação com o cenário, a não ser alguns poucos colecionáveis “escondidos” pelos mapas. E o pior, esses colecionáveis não agregam quase nada à sua experiência de jogo, não expandem o universo que é apresentado, não possuem relação nenhuma com os acontecimentos vivenciados. São apenas coisas a serem observadas, nada mais do que isso.

A única coisa que tenta dar alguma expansão ao universo de The Order são pequenos áudios que você encontra espalhados pelo cenário, mas o empenho para ouvi-los, tendo que acessar o menu do jogo e ficar numa tela pausada acabam tornando a tarefa cansativa, ainda mais depois dos longos diálogos entremeados com QTE e andanças sem fim.

Armas steampunk dão um tom diferenciado ao jogo.
De toda a gameplay, apenas o que pode ser elogiado é o pequeno pedaço shooter do jogo, que é sim muito competente, mesmo não tendo nada de inovador. As armas básicas que o jogo te apresenta são genéricas (metralhadoras, rifles, shotguns e pistolas), mas são muito bonitas e possuem funcionalidades legais. Por exemplo, a metralhadora possui um disparo de ar que pode atordoar seus inimigos, enquanto existe uma shotgun de três canos, que praticamente dilacera seus oponentes, fazendo da morte um banho de sangue.

Em alguns momentos o jogo te permite utilizar três armas que possuem um avanço tecnológico imenso e que são muito divertidas de jogar. Pena que elas não permanecem no seu inventário durante o resto do jogo.

O cover-based dele é bem intuitivo, os cenários são lineares, bastando você eliminar uma horda de inimigos e avançar pelos caminhos, protegendo-se nos obstáculos que o cenário proporciona. O sistema de tiro cego é muito funcional e, se não fossem os pequenos problemas de câmera quando você está no cover, funcionaria muito bem.

Nos combates o jogo acrescenta duas mecânicas que são bem interessantes, a primeira delas chama-se “blacksight”, que é uma forma de mira automática por determinado tempo, em que o jogo entra em slowmotion e te permite aniquilar um número maior de inimigos.

A segunda, que tem muito a ver com o enredo do jogo, permite que você recupere-se quando está gravemente ferido.

O grande problema é a inteligência artificial (IA) do jogo em si (isso envolve tanto seus companheiros quanto seus inimigos). Os inimigos raramente se movem, basicamente eles ficam em outras posições de cover, levantando de tempos em tempos para atirar em você.

E as duas grandes batalhas do jogo são todas em QTE, o que acaba sendo muito frustrante no final das coisas, pois fora os inimigos genéricos que possuem baixíssima IA, você só enfrenta uma outra espécie de inimigo que é uma esponja de tiros.

Existem também outros pequenos momentos do jogo em que você se defronta com mestiços (criaturas meio humanas meio lobos), em um combate mecânico, repetitivo e sem graça, deixando o forte do enredo do jogo completamente de lado.
Oi! Eu sou um mestiço e quero morder seu pescoço.

Por fim, o jogo faz uma incursão em um sistema de stealth, que também é muito mal trabalhado. Da mesma forma que os QTE, neste trecho do jogo você morre automaticamente se for visto.

PRÓS: Gráfico primoroso, trilha sonora excelente e enredo diferenciado são as grandes virtudes de The Order 1886. Pode-se citar aqui a competência do cover-based third person shooter que o jogo apresenta, que, apesar de não ser inovador, não deixa de divertir o jogador.

CONTRAS: A baixa duração da gameplay, com diversas cutscenes, muitas QTE, inexistência de um modo multijogador, fator de replay nulo, inimigos genéricos e em horda, sem qualquer diferença no padrão de ataque, batalhas contra mestiços repetitivas e maçantes minaram muito qualquer possibilidade de sucesso do The Order. O jogo poderia também permitir skip nas cutscenes e tutoriais (é isso mesmo, você não pode cortar a história em uma segunda gameplay), bem como indicar por capítulos quais os colecionáveis ausentes.

CONCLUSÃO: The Order 1886 merece sim ser jogado, apesar dos seus graves defeitos. Pode-se dizer que o Playstation 4 não apresentou nenhum outro jogo com uma qualidade gráfica tão primorosa (talvez Uncharted 4?).

Além disso, a história que o jogo trás é convincente. Como dito em momento anterior, o jogo poderia muito bem ser o prólogo de uma grande franquia, que poderia também corrigir os defeitos existentes em seu desenvolvimento. Na realidade a engine está pronta. Basta utilizá-la. Porém, ao que tudo indica, isso está longe de acontecer.

Resumidamente, a criação da franquia foi toda trabalhada pela Ready at Dawn, porém, conforme o contrato de parceria estabelecido, o estúdio cedeu os direitos autorais da obra à Sony e justamente essa cessão de direitos que gerou um grave desentendimento entre as empresas.

Desde então não há nenhuma notícia concreta sobre continuidade da franquia, existindo apenas rumores extraídos de entrevistas e conversas entre os envolvidos.

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